Artigos - Experiência de um Terapêuta

TORNANDO-SE TERAPEUTA CENTRADA NA PESSOA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA.

 

BECOMING A PERSON-CENTERED THERAPIST: AN EXPERIENCE REPORT

 

Pollyane Maria Lattmann Chemin – UVV[1]

Maria da Conceição Passos Almeida – UVV[2]

TORNANDO-SE TERAPEUTA CENTRADA NA PESSOA: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA.

 

 

Este trabalho é resultado de minha experiência como acadêmica de Psicologia. Na busca da construção do meu próprio estilo de ser terapeuta, questiono e reflito sobre o que é ser uma terapeuta centrada na pessoa. O embasamento teórico desta experiência se apoia nos princípios da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) proposta por Carl Rogers, sobre a tendência atualizante, a pessoa em funcionamento pleno e nas condições necessárias e suficientes para mudanças terapêuticas na personalidade. Outros autores da Psicologia Humanista Existencial-Fenomenológica contribuem para a compreensão acerca das intervenções terapêuticas. Descritivamente articulo a teoria com a minha própria vivência, na supervisão e nos atendimentos psicológicos realizados. No decorrer desta experiência, passei a desenvolver atitudes e habilidades terapêuticas necessárias ao processo de tornar-me terapeuta centrada na pessoa.

 

Palavras-chave: Experiência do terapeuta; Habilidades terapêuticas; Abordagem Centrada na Pessoa.

 

 

Abstract

 

This work is a result of my experience as a college student of psychology. In the search of my own way of being a therapist, I question and reflect about what is to be a person-centered therapist. The theoretical basis relies on the principles of the Person-Centered Approach (PCA) experience, proposed by Carl Rogers, on the actualizing tendency, on the person at his/her full operation and on the necessary and sufficient conditions for therapeutic changes on his/her personality. Other authors on Existential-Phenomenological Humanist Psychology have contributed to my understanding about therapeutic interventions. I descriptively articulate the theory with my own experience on supervision and psychological assistance. During my experience, I caught myself developing therapeutic actions and abilities which are necessary to the process of becoming a person-centered therapist.

 

Keywords: Therapist experience; Therapeutic abilities; Person-centered Approach.

 

INTRODUÇÃO

 

O estágio supervisionado em Psicologia Clínica é o momento do encontro da teoria com a prática clínica. Momento este que oferece ao aluno estagiário a oportunidade do confronto com a realidade clínica, vivenciando experiências subjetivas e desenvolvendo continuamente seu sentido crítico e reflexivo, assim como habilidades terapêuticas necessárias para o estabelecimento da identidade de psicólogo. Para tanto, o aluno precisa acreditar no seu potencial intelectual e em seus recursos próprios para o enfrentamento dos desafios propostos pela formação acadêmica e da prática clínica a caminho de sua realização profissional.

 

Adquirir essa confiança é um processo que exige muita dedicação, pesquisa, investigação, estudos e, principalmente, a experiência do aluno na prática clínica. Esta experiência não se resume apenas à experiência na prática clínica em si, no atuar, mas a uma experiência vivencial e significativa, em que o aluno experiencia subjetivamente a sua capacidade de atuar como terapeuta.

 

A experiência no estágio supervisionado em Psicologia Clínica, apresentada neste trabalho, é resultado do aprofundamento teórico e da prática clínica. O objetivo é descrever a minha vivência como aluna-terapeuta centrada na pessoa.

 

Fundamentei a prática à luz da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), a partir da qual realizei um estudo bibliográfico, detendo-me aos conceitos de Carl Rogers sobre a tendência atualizante, a pessoa em funcionamento pleno e nas condições necessárias e suficientes para mudanças terapêuticas na personalidade.

 

Na busca de conhecimento sobre a intervenção terapêutica, utilizei-me da contribuição teórica de outros autores da Psicologia, como Gendlim, fundador da terapia orientada pela Focalização (conhecida também como Terapia Experiencial), e também os experimentos de crescimento da Gestalt-Terapia e da Psicologia Existencial-Fenomenológica.

 

Busco, no método fenomenológico, a compreensão do sentido da experiência como fenômeno desta experiência humana, voltada para a minha própria vivência. A partir dos diários de sessão, descrevo a percepção do processo terapêutico, as intervenções terapêuticas que realizo e meus sentimentos em relação à experiência, articulando-os com a teoria. Reflito sobre o significado dessa experiência para minha formação como profissional de psicologia, buscando criar meu próprio estilo de ser terapeuta.

 

Carl Rogers (1902-1987) é o autor citado neste trabalho como referência, considerado um psicólogo americano de intensa produção e de grandes raízes deixadas no Brasil, fundador da Abordagem Centrada na Pessoa, notoriamente um dos mais importantes expoentes da Psicologia Humanista desde a década de 40.

 

A grande confiança que Rogers (1997) sentia pelo homem é o marco de seu pensamento em relação a sua concepção da natureza humana, e é a partir desta visão de homem de “potencialidade e digno de confiança”, que Rogers vai defender toda sua teoria.

 

Essa premissa de confiança pode, à primeira vista, parecer ingênua, mas, para Rogers, não implica em dizer que o homem é bom, mas sim que existe nele uma natureza positiva, com uma tendência para o crescimento, para a atualização do seu potencial. (ROGERS, 2001).

 

A ideia de natureza humana para Rogers, em certo sentido, pode ser identificada como o próprio fluxo da vida com uma tendência à plenitude e autorrealização.

 

Os organismos estão sempre em busca de algo, sempre iniciando algo, sempre “prontos para alguma coisa”. Há uma fonte central de energia no organismo humano. Essa fonte é uma função do sistema como um todo, e não uma parte dele. A maneira mais simples de conceituá-la é como uma tendência à plenitude, à autorrealização, que abrange não só a manutenção, mas também o crescimento do organismo (ROGERS, 1983, p.44).

 

O enunciado de Rogers (2008) é a crença na capacidade do indivíduo, latente ou  manifesta, de compreender-se a si mesmo e de resolver seus  problemas de modo suficiente para alcançar a satisfação e eficácia  necessárias ao funcionamento adequado, e esse funcionamento adequado, Rogers chamou de funcionamento pleno. 

 

A pessoa em funcionamento pleno é uma pessoa idealizada com a capacidade de idealizar todo o estímulo através do sistema nervoso sem distorcê-lo por mecanismos defensivos. Esta pessoa seria “aberta à experiência”. Sua personalidade e seu self “estariam continuamente em fluxo”, vivendo num momento, de um “modo existencial”. Ele agiria de acordo com o que sente no momento, “confiando no seu organismo para encontrar o comportamento mais satisfatório” para cada situação existencial (ROGERS, 2008. p. 192).

 

A pessoa em funcionamento pleno teria algumas características básicas, tais como: maior abertura para o novo, percepção de si, não como uma estrutura rígida e imutável, mas como um ser humano pleno de possibilidades e que pode se reconhecer em sua experiência, porque ele "é" a sua própria experiência. (ROGERS, 1997).

 

Rogers (1997)formula, a partir desta concepção de homem de potencialidade, uma hipótese geral: “Como posso tratar ou curar; ou mudar essa pessoa? Agora eu enunciaria a questão desta maneira: Como posso proporcionar uma relação que essa pessoa possa utilizar para seu próprio crescimento pessoal?” (p.36).

 

Sendo assim, ao descrever que o Indivíduo tem dentro de si amplos recursos para autocompreensão, para alterar seu autoconceito, suas atitudes e seu comportamento autodirigido, Rogers propõe que é o próprio cliente, no processo terapêutico, quem vai encontrar a saída para seus problemas, porém esses recursos só podem emergir se lhe for fornecido determinado clima de atitudes psicológicas facilitadoras, condições básicas para que esses problemas sejam superados. (ROGERS, 2001).

 

Rogers (2008) refere-se a seis condições postuladas como necessárias e suficientes para que, no processo terapêutico, ocorram mudanças construtivas na personalidade, tanto em termos superficiais, quanto em termos mais profundos.

 

A primeira condição para a mudança terapêutica é que se estabeleça uma relação mínima de contato pessoal e psicológico entre o terapeuta e o cliente. Uma relação de encontro, uma relação dialógica, que possibilite o crescimento pessoal.

 

O estado do cliente é citado como a segunda condição, em que o cliente deve se encontrar em um estado de desacordo interno, de vulnerabilidade psicológica que Rogers chama de estado de incongruência. Muitas vezes o cliente não sabe por que, mas sente que está em conflito com ele mesmo, e por mais que o cliente não tenha clareza desses sentimentos, ele deve sentir certo desconforto e querer estar na terapia.

 

Ao contrário do cliente, o terapeuta deve se encontrar em um estado de congruência, de harmonia consigo mesmo no momento da terapia, o que Rogers chama de autenticidade, considerada uma das importantes atitudes facilitadoras no processo de mudança. Ter autenticidade é ser genuíno, verdadeiro e integrado na relação com o cliente. Se, no momento desta relação, o terapeuta conseguir expressar ao cliente quem ele realmente é, seus sentimentos e percepções captados na relação com o cliente, a terceira condição que se estabelece estará atendida.    

 

Outra importante atitude do terapeuta é a consideração positiva incondicional. O terapeuta considera os sentimentos que o cliente traz, ouvindo sem julgar, sem criticar, sem impor condições ou submetê-lo a qualquer tipo de julgamento de valores sociais, simplesmente compreende e aceita o que o cliente está trazendo e sentindo no momento. A consideração positiva incondicional é a aceitação dos sentimentos e do processo organísmico, dentro do ritmo que cada cliente possui no desenrolar do processo terapêutico. Cabe ao terapeuta aceitar o próprio movimento do cliente, o que ele está sendo e o que ele está sentindo na relação terapêutica, o que não significa aceitação de permissividade de comportamento tido como inadequado ou indesejado.

 

A quinta condição que se estabelece é a compreensão empática. Compreendida como a capacidade do terapeuta de entrar no mundo do cliente, ver o mundo particular do cliente através de seus olhos, compreendendo e captando o que o cliente realmente está sentindo. Compreender empaticamente é atingir a compreensão da experiência sentida pelo cliente, é ter clareza sobre o significado do que o cliente quer dizer, é ter habilidade para compartilhar os sentimentos do cliente, esforçando-se para comunicar essa experiência, possibilitando ao cliente sentir-se realmente compreendido em seus sentimentos e pensamentos.

 

Finalmente como a sexta condição, o cliente precisa perceber as condições anteriores, pelo menos em um grau mínimo, ele precisa perceber que o terapeuta experiencia por ele sentimentos de aceitação e empatia, ele precisa perceber o rigor do terapeuta das sessões e seu comprometimento com o processo e as condições que estão presentes na relação terapêutica.

 

Assim, o terapeuta centrado na pessoa se apoia na premissa de que estas atitudes facilitadoras, ou seja, ser autêntico na relação terapêutica, ser empático e aceitar incondicionalmente seu cliente, são necessárias para a promoção do crescimento e do desenvolvimento do cliente. A relação terapêutica centrada na pessoa possibilita ao cliente remover obstáculos que o impedem de avançar e de se orientar para uma vida melhor rumo à maturidade em um processo contínuo.  (ROGERS, 2005).

 

No processo contínuo de crescimento, ao sustentar a dinâmica da mudança, Rogers procura descrever como ocorrem as reações do cliente que passa por algum tempo pela experiência de uma relação terapêutica baseada nas condições necessárias e atitudes facilitadoras do terapeuta.

 

Em primeiro lugar, como encontra alguém que ouve e aceita os seus sentimentos, ele começa, pouco a pouco, a tornar-se capaz de ouvir a si mesmo. Começa a perceber mensagens que vêm do seu próprio interior, a perceber que está com raiva, a reconhecer quando tem medo, e mesmo a tomar consciência de quando se sente com coragem. À medida que começa a se abrir mais para o que se passa nele, torna-se capaz de perceber sentimentos que sempre negou e reprimiu. Pode haver sentimentos que lhe pareciam tão terríveis, tão desorganizadores, tão anormais ou tão vergonhosos, que nunca seria capaz de reconhecer que existissem nele (ROGERS 1997, p.74).

 

Na relação terapêutica, o cliente se organiza de modo a enfrentar a sua vida de forma mais sadia, construtiva e inteligente. Mudanças significativas ocorrem em relação ao seu comportamento, a sua percepção, à compreensão e aceitação de si mesmo e dos outros.

 

Neste relacionamento, o indivíduo se torna mais íntegro, mais efetivo. Exibe menos daquelas características que são normalmente intituladas neuróticas ou psicóticas, e mais daquelas características da pessoa sadia e em bom funcionamento. Ele muda a percepção de si mesmo, tornando-se mais realista em suas visões do eu. Torna-se mais semelhante à pessoa que deseja ser. Ele se valoriza mais. Mostra-se mais autoconfiante e autodirigido. Apresenta uma melhor compreensão de si mesmo, tornando-se mais aberto a sua experiência, negando ou reprimindo menos a mesma. Torna-se mais aceitador em suas atitudes com relação aos outros, vendo-os como mais semelhantes a si mesmo (ROGERS, 1997, p. 41).

 

Nesse processo, o cliente passa a perceber que o terapeuta tem para com ele e para com os seus sentimentos uma atitude congruente e uma consideração positiva incondicional e, assim, o cliente passa a ter uma atitude idêntica em relação a si mesmo, aceitando-se melhor e adotando uma atitude menos defensiva perante a sua vida.  

 

Finalmente, ao ouvir com maior atenção os sentimentos interiores, com menos espírito de avaliação e mais de aceitação de si, encaminha-se também para uma maior congruência. Descobre que é possível abandonar a fachada atrás da qual se escondia, que é possível pôr de lado os comportamentos de defesa e ser de uma maneira mais aberta o que realmente é (ROGERS, 1997, p.74).

 

Sendo assim, considerando o que Rogers (1997) defende, é possível dizer que à medida que essas transformações vão ocorrendo, o cliente vai tornando-se mais consciente de si, aceitando-se a si e aos outros como são, descobrindo-se como sendo livre para fazer suas próprias escolhas e a se responsabilizar por elas, percebendo a possibilidade de se ver diferente, crescendo em direção ao desenvolvimento e à plenitude num processo contínuo.

 

Para que este processo ocorra, o terapeuta deve intervir na relação terapêutica de forma a possibilitar ao cliente avançar na terapia. Intervir no processo terapêutico, enquanto terapeuta centrado na pessoa, é intervir de forma não diretiva, o que não significa ser rígido e passivo na relação terapêutica, significa não interferir no processo do cliente. Isto quer dizer que o terapeuta não vai fornecer direções ou sugestões para o cliente, não vai dizer o que ele tem de fazer ou deixar de fazer com sua vida. O psicoterapeuta vai escutar atentamente o que o cliente está dizendo, clarificando, de modo a organizar para o cliente, aquilo que ele está dizendo, muitas vezes de forma desorganizada. Através da clarificação, o cliente obtém a compreensão do que foi dito por ele mesmo. (SANTOS. 2004)

 

Para que se possa compreender efetivamente o que foi dito pelo cliente, o terapeuta precisa saber escutar, ver e sentir ativamente, fatores cruciais no processo psicoterapêutico para que mudanças e crescimento ocorram no cliente.

 

Escutar, ver e sentir o outro ativamente significa estar bastante atento a tudo o que o outro está expressando verbal e não-verbalmente procurando entender profundamente tudo o que está sendo expressado (palavras, imagens e sentimentos) sem o intuito de tentar modificar o que o outro está expressando ou sem construir uma resposta dentro da cabeça para o que o outro está expressando (SANTOS, 2004, p. 62). 

 

O cliente muitas vezes não tem consciência de seus reais sentimentos, e o terapeuta, numa atitude empática, capta, no momento da fala do cliente, aquilo que o cliente está sentindo e devolve para o cliente, refletindo esses sentimentos de modo a mostrar ao cliente que seus sentimentos foram compreendidos pelo terapeuta.

 

A reflexão significa que o terapeuta reflete para o cliente o que ele está expressando, utilizando as próprias palavras do cliente ou suas próprias palavras resumindo o que o cliente disse, e quando possível o terapeuta também usa o mesmo tom de voz e movimentos físicos utilizados pelo cliente. Existem dois níveis de reflexão: no primeiro nível o terapeuta reflete simplesmente as palavras, o tom de voz e os movimentos corporais que estão aparentes para ele e para o cliente e num segundo nível o terapeuta reflete para o cliente sentimentos profundos do cliente, vindos da intuição do terapeuta, que não está no momento consciente para o cliente. È importante ter em mente que o segundo nível deve ser utilizado somente quando o terapeuta está numa conexão profunda com o cliente, pois esse segundo nível pode tocar em pontos que o cliente não está preparado para abordar ou não quer abordar no momento (SANTOS, 2002, p. 64). 

 

Cabe ao terapeuta centrado na pessoa apontar discrepâncias, confrontando o cliente em relação ao que é observado e ao que é falado pelo cliente no momento da terapia. A confrontação como intervenção terapêutica é muitas vezes empregada quando o cliente diz alguma coisa diferente daquilo que o terapeuta está percebendo. A confrontação leva o cliente a perceber quando ele está vivenciando sentimentos contraditórios e também o leva a desfazer suas negações e defesas rígidas, muitas vezes pela fuga do assunto. A confrontação muitas vezes leva o cliente a experienciar um aumento de ansiedade, quando ele se depara com estas forças opostas. (ROGERS. 2005).

 

A resposta que o terapeuta vai dar ao cliente deverá transmitir aquilo que o terapeuta está realmente sentindo em relação ao cliente no exato momento em que ele escuta e percebe o cliente. Esta expressividade do terapeuta é a maneira congruente de o terapeuta revelar seus sentimentos em relação ao cliente na relação terapêutica, facilitando, desta forma, a autorrevelação do cliente e a experienciação de seus sentimentos. (ROGERS. 2005).

 

A experienciação de sentimentos possibilita ao cliente se relacionar com a sua experiência no processo terapêutico. Essa experienciação se refere àquilo que o cliente está sentindo no exato momento da experiência. O terapeuta facilita ao cliente o experienciar de seus sentimentos organismicamente, levando o cliente a prestar atenção a sua experienciação corporal. (GENDLIN. 2006).

 

No processo terapêutico segundo Gendlin (2006), o cliente aprende, através do método de focalização, a entrar em contato com uma consciência física interna especial, denominada Felt Sense. O cliente passa a dar significados que são sentidos corporalmente pelo ato interno. “O Felt Sense é a sensação do corpo acerca de um problema ou uma situação particular” (p.29).

 

O Felt Sense não é uma emoção. Nós sabemos reconhecer as emoções. Sabemos quando estamos zangados, tristes ou alegres. O Felt Sense é algo que voce não reconhece de imediato – é vago, indefinido. Parece ter sentido, mas não é reconhecido. Tem um significado corporal (GENDLIN, 2006, p. 29).

A experienciação do cliente deve ser facilitada no momento imediato através da interação com o terapeuta. O terapeuta ouve a experiência do cliente e devolve o que o cliente tem a intenção de comunicar. O terapeuta interage com o cliente de modo que o cliente possa entrar em contato com seu Felt Sense em relação às situações da vida. (GENDLIN. 2006).

 

Tentativas de intervenção terapêutica que visam a analisar racionalmente os sentimentos ou a enfrentá-los podem não surtir efeitos no cliente, porque não alcançam e nem mudam a origem do incômodo, porque ele se encontra no corpo, e se o terapeuta pretende possibilitar ao cliente uma mudança, ele precisa recorrer a um processo de mudança que também seja físico, e esse processo ocorre pela focalização de sentimentos. A focalização de sentimentos tem o poder de provocar uma mudança no cliente, uma mudança corporal. (GENDLIN, 2006).

 

Ela parece acontecer em todo o corpo ou pode parecer um alívio no peito ou o relaxamento da garganta apertada. Chamo-a mudança corporal, sobretudo para insinuar que não ocorre na mente. É sempre, de certa forma, uma sensação física. È comum vê-la e ouvi-la quando ocorre em outras pessoas. Pode acontecer um suspiro de alívio longo e audível, o relaxamento repentino da tensão fácil e um relaxamento rápido e reconfortante na postura (GENDLIN, 2006, p. 57).

 

Gendlin (2006) acrescenta como a mudança ocorre: ”Pode-se sentir a mudança ocorrer no corpo. É uma sensação física bem definida de algo que se desloca e muda. É, invariavelmente, uma sensação agradável de que algo se desprendeu ou desafogou” (p.56).

 

Intervir terapeuticamente na visão da Gestalt-Terapia, assim como na ACP, é primeiramente acreditar que o cliente é possuidor de potencialidades e de recursos internos, e esses recursos internos podem ser acessados pelo cliente e usados para desenvolver suas potencialidades, desde que ele preste atenção e torne-se mais profundamente consciente de seu próprio experienciar. Para isso, o cliente precisa entrar em contato consigo mesmo pela tomada de consciência, atribuindo significados a sua vivência. (STEVENS. 1988)

 

A função do terapeuta será a de criar um clima empático, seguro, estabelecendo uma relação dialógica terapeuta-cliente, de modo a possibilitar ao cliente entrar em contato com sua experienciação.

 

Quando você entra em contato com sua própria experienciação, descobre que a mudança ocorre, sem esforço ou planejamento. Com consciência total, você pode deixar acontecer o que tiver que acontecer, com a confiança de que vai dar certo. Você pode aprender como se soltar, viver e deixar fluir o que com você ocorre e aquilo que experiencia, sem frustrar-se com exigências de ser diferente. Toda a energia que é mobilizada para a batalha entre tentar mudar e resistir à mudança pode ser usada na participação ativa ou passiva do que acontece em sua vida (STEVENS, 1988, p.18).

 

Segundo Stevens (1988), para a Gestalt-Terapia, uma das maneiras de possibilitar ao cliente entrar em contato com sua própria experiência é pela utilização de recurso do experimento. O experimento é a vivência do aqui-agora, uma reelaboração de uma experiência passada no presente imediato, é um ressignificar dessa experiência, trazendo para o real questões inacabadas. Através dos experimentos é possível “aumentar o contato com a realidade interior e exterior, e diminuir a preocupação com a atividade da fantasia que impede seu contato com a experiência” (p. 43).

 

As fantasias podem impedir o cliente de se expressar e de adquirir consciência dos fatos reais. As fantasias são permeadas por percepções distorcidas de fatos que ocorreram no passado ou que podem ocorrer no futuro e, se o cliente conseguir realmente presentificar estas fantasias, terá oportunidade de explorar o que elas exprimem a seu próprio respeito e verificá-las, comparando-as com a realidade. (STEVENS. 1988).

 

Existem imensas forças de destruição soltas no mundo. Estas forças são, na maioria das vezes, criadas, mantidas e dirigidas por fantasmas, medos, ideologias, crenças, suposições, pensamentos, planos, tradições, costumes etc. Muitos daqueles que se agarram a estas fantasias, e alguns que também observam de fora, estão sendo destruídos por estas forças. Um grande número de nós está despertando de sonhos e pesadelos e entrando em contato com a realidade do experienciar. Ao fazermos isto, tornamo-nos pessoalmente livres destas fantasias e nos afastamos das forças destrutivas que estas fantasias geram (STEVENS, 1988, p. 251).

 

A abordagem humanista propõe que o terapeuta desenvolva seus métodos de intervenção terapêutica como forma de estimular o desenvolvimento do potencial do cliente, não tendo a pretensão de tratar a enfermidade, disfunções ou anomalias psíquicas, mas de ajudar a pessoa na sua individualidade e sofrimento. O terapeuta é, antes de tudo, um facilitador que escuta o cliente e o aceita como sendo uma pessoa que possui a tendência inata e intrínseca para o crescimento e autorrealização. (BOAINAIN. 1998).

 

Os instrumentos terapêuticos básicos de um terapeuta são a fala e a escuta, o trabalho do terapeuta é, praticamente, seguir as falas de seu cliente na evolução da relação terapêutica, e é função do terapeuta aperfeiçoar sua capacidade de escutar e de compreender o discurso do cliente.  (ERTHAL. 2004).

 

O terapeuta precisa ser capaz de entender seu cliente, compreender suas declarações e responder de maneira que facilite a realização dos objetivos fixados, e é de grande importância o modo de agir do terapeuta, que deve ser coerente com seu real modo de ser, pois a maneira como o terapeuta responde ao que o cliente fala é que vai possibilitar ao cliente se revelar no processo terapêutico. (ERTHAL. 2004).

 

A abordagem humanista existencial-fenomenológica trata o modo de existir do cliente no aqui-agora, não visando o problema, mas a pessoa e seu problema na sua totalidade, e qualquer intervenção terapêutica que vise à mudança ou ao crescimento no cliente deve, primeiramente, promover a responsabilidade.

 

A responsabilidade é uma questão crucial a ser trabalhada na psicoterapia de base existencial, considerando-se que o cliente é o único que pode decidir sobre si próprio e nunca as situações ou as pessoas envolvidas em sua vida decidirão por ele; Mesmo quando atribui a terceiros ou ao impessoal a decisão, ainda sim está sendo responsável. (FEIJOO, 2000, p.134).

 

Segundo Feijoo (2000), cabe ao psicoterapeuta “Ampliar a perspectiva do sentido do cliente, através de sua fala, e através das reduções fenomenológicas, realizadas pelo terapeuta” (p. 138).

 

No campo da investigação da vivência de pessoas em processo terapêutico, a fenomenologia é tida como um método que possibilita chegar à essência do próprio conhecimento pela redução fenomenológica do processo de mudança, crescimento e desenvolvimento, tal qual ocorre com o cliente. (FORGHIERI. 2004).

 

A redução fenomenológica consiste em retornar ao mundo da vida, tal qual aparece antes de qualquer alteração produzida por sistemas filosóficos, teóricos científicos ou preconceitos do sujeito; retornar a experiência vivida e sobre ela fazer uma profunda reflexão que permita chegar à essência do conhecimento, ou ao modo como este se constitui no próprio existir humano (FORGHIERI, 2004, p. 59).

 

O psicólogo, enquanto pesquisador da Psicologia, ao se utilizar da redução fenomenológica para “investigar formas concretas de existência ou experiências vividas em determinadas situações, deve iniciar o seu trabalho voltando-se para a sua própria vivência, a fim de refletir sobre ela para captar o significado da mesma em sua existência” (Forghieri, 2004, p. 59).

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Forghieri (2004) considera que a redução fenomenológica, no campo da Psicologia, constitui-se de dois momentos que se inter-relacionam, iniciando-se com o envolvimento existencial, que seria o retorno do psicólogo-pesquisador à própria vivência, do próprio fenômeno, sem pré-conceito, com consciência, saindo de uma atitude intelectualizada e penetrando na vivência de um modo profundo espontâneo e experiencial, “para deixar surgir à intuição, percepção, sentimentos e sensações que brotam numa totalidade, proporcionando-lhes uma compreensão global, intuitiva, pré-reflexiva, dessa vivência” (p. 60).

 

Após penetrar na vivência, “o pesquisador procura estabelecer certo distanciamento da vivência, para refletir sobre essa compreensão e tentar captar e enunciar, descritivamente, o seu sentido ou o significado daquela vivência em seu existir.” (Forghieri, 2004, p. 60).

 

No campo da Psicologia, Forghieri (2004) cita que “o conhecimento psicológico é reflexão e ao mesmo tempo vivência; é conhecimento que pretende descobrir a significação, no contato afetivo do psicólogo com sua própria vivência e com a de seus semelhantes” (p.22).

 

De acordo com o referencial teórico citado, é possível compreender que o pensamento humanista ressalta a crença na orientação positiva do homem, reportando o ser humano a si próprio numa realidade mútua com o mundo. Toda pessoa seria dotada de potencialidade, voltada para o desenvolvimento pessoal, a autorrealização e a plenitude. O existencialismo e a fenomenologia complementam o referencial na tentativa de enfatizar a capacidade de análise do fenômeno subjetivo na consciência, por meio da percepção experienciada, possibilitando um olhar que traz maior amplitude à Psicologia.     

 

PERCURSO METODOLÓGICO

 

Este trabalho é resultado da minha experiência como estagiária do curso de Psicologia do Centro Universitário de Vila Velha – UVV. Durante o estágio, realizei atendimentos psicológicos com oito clientes adultos, os atendimentos ocorreram de março a dezembro de 2009. As sessões individuais ocorreram uma vez por semana, com a duração de 50 minutos cada, totalizando oito atendimentos semanais. O primeiro processo terapêutico encerrado ocorreu com 14 sessões realizadas, o segundo com 21 sessões, um cliente com 23 sessões, outro com 26 sessões e quatro clientes com 30 sessões.

 

Todas as sessões realizadas nesse período foram transcritas em diários de sessão e apresentadas à supervisão. Em cada diário de sessão, busquei articular a vivência clínica com a teoria, discriminando a fala, as intervenções terapêuticas realizadas, a percepção do processo terapêutico e dos clientes e os sentimentos vivenciados na relação terapêutica, possibilitando assim o registro dos fatos ocorridos e a compreensão do processo terapêutico como um todo.

 

A supervisão ocorreu uma vez por semana e compartilhei o horário de supervisão com três estagiárias, formando um grupo de quatro estagiárias supervisionadas no mesmo horário com o tempo dividido em 50 minutos para cada aluna.

A minha atuação como aluna-terapeuta centrada na pessoa se apoiou nos postulados da ACP sobre as atitudes facilitadoras do terapeuta, isto é, ser congruente na relação terapêutica, ser empático e aceitar incondicionalmente seu cliente, acreditando no potencial do cliente de orientar-se rumo ao crescimento e ao desenvolvimento.

 

Procurei desenvolver a escuta fenomenológica de modo a tentar desvelar o sentido da fala do cliente. Utilizei, como forma de intervir terapeuticamente, a clarificação, a reflexão de sentimentos, a confrontação e a experienciação de sentimentos. Em algumas situações terapêuticas, fiz uso de outros recursos terapêuticos, como o método de focalização de sentimentos, relaxamento, escrita e alguns experimentos da gestalt-terapia (almofada-viagem fantasia).

 

Através do método fenomenológico, procurei compreender o significado dessa experiência. Primeiramente, passei por um envolvimento existencial retornando à minha própria vivência para ter a compreensão global pré-reflexiva do processo terapêutico e das intervenções terapêuticas a partir do fenômeno. Depois precisei fazer certo distanciamento reflexivo da vivência para refletir sobre a experiência de ser terapeuta centrada na pessoa, buscando a compreensão e o sentido dessa experiência para minha formação como profissional da psicologia, enunciando essa experiência descritivamente.

 

A EXPERIÊNCIA DE TORNAR-ME TERAPEUTA CENTRADA NA PESSOA.

 

O estágio supervisionado em Psicologia Clínica oportunizou-me vivenciar a prática clínica e atuar mediante suporte da teoria humanista - ACP. O processo terapêutico, até então vivido na teoria, passou a ser experienciado por mim na prática, gerando momentos de angústias, expectativas, insegurança, sentimentos de frustrações e ao mesmo tempo, sentimento de desafio na busca de conhecimento e experiência.

 

Passei a perceber que muitas vezes a teoria não é suficiente para dar conta de certas demandas e de situações inesperadas no processo terapêutico e nem tampouco a formação acadêmica é suficiente para o enfrentamento da realidade clínica. Aprendi que a teoria precisa estar ao lado do terapeuta como um suporte teórico e não à frente do terapeuta, direcionando ou moldando sua atuação. Passei a compreender que não posso “ser” a teoria, mas estar “com” a teoria ao meu lado, apoiando e facilitando a construção de meu próprio estilo de ser terapeuta.  

 

No primeiro momento da experiência no estágio, precisei adaptar-me ao formato de supervisão e não mais de aula, uma experiência acadêmica nova e desafiadora, quando deixo de ser aluna para ser estagiária atuando na função de psicóloga.

 

A experiência da supervisão foi de trabalho em grupo, compartilhado com mais três estagiárias. A limitação de tempo de supervisão para cada estagiária gerou em mim, em alguns momentos, sentimentos de ansiedade, impaciência e insatisfação, pois, em algumas situações, a supervisão não foi suficiente para acompanhar todos os casos clínicos atendidos por mim. Considerei poucas as horas de supervisão oferecidas pela instituição, frente ao número de horas semanais exigidas do aluno para atendimentos clínicos.

 

A exigência de diários de cada sessão realizada causou-me muito estresse, e semanalmente entregava à supervisão oito diários.  Debruçava-me durante horas após cada sessão, descrevendo o processo, a percepção do cliente, as mudanças observadas e sentimentos vivenciados por mim. Na tentativa de ser o mais fidedigna possível nos relatos, fazia anotações ao final de cada sessão sobre sentimentos e conteúdos considerados relevantes, para depois poder relembrar e transcrever a sessão.

 

Gravei algumas sessões com o consentimento do cliente. Essa experiência possibilitou ouvir-me e também voltar a ouvir o cliente e, assim, verificar situações que deveriam ser trabalhadas no processo terapêutico e melhoradas na forma de comunicar-me com o cliente.

 

Busquei aprofundamento teórico que pudesse sustentar a prática, fazendo a leitura de vários autores da Psicologia humanista existencial-fenomenológica, procurando refletir e compreender o processo terapêutico e a atuação do terapeuta nessa perspectiva. Nas obras de Carl Rogers, identifiquei-me com a visão de homem de potencialidade e digno de confiança, passei a acreditar e a confiar no cliente como uma pessoa capaz de  orientar-se e desenvolver-se a caminho de uma vida melhor.

 

Ao fundamentar a prática à luz da ACP, verifiquei e confirmei o processo de mudança ocorrer no cliente a partir das condições facilitadoras promovidas por mim. O desenvolvimento das atitudes e habilidades terapêuticas foi possível pela articulação da teoria com a prática orientada pela supervisão.

 

A experiência e a superação das dificuldades foram facilitadas pela supervisora, a qual eu tenho como referência no processo de formação. Diante das atitudes facilitadoras da supervisora, passei a me sentir capaz de enfrentar os obstáculos e os desafios da prática clínica, assim como de compreender a teoria. Fui supervisionada de modo autêntico, incondicional e empático, com muito profissionalismo, ética, competência e dedicação. Senti-me apoiada e incentivada na minha forma de ser e atuar, o que me deixou segura para avançar na experiência clínica.

 

Além do suporte teórico e do apoio da supervisão, dediquei-me anteriormente e durante o estágio à psicoterapia pessoal, o que considero importante na experiência em psicoterapia, pois me permitiu, no processo de aprendizagem, vivenciar muitos aspectos do processo terapêutico, colocando-me no lugar do cliente. Considero que a psicoterapia pessoal seja um processo que deverá me acompanhar em muitos estágios de minha vida e acredito que seja uma boa maneira de eu poder aprender cada vez mais sobre a psicoterapia. 

 

Durante o estágio, tive a oportunidade de acompanhar oito clientes em processo terapêutico. Considero esse número significativo, pois todos os clientes que atendi iniciaram o processo e permaneceram até o término do projeto de estágio ou tiveram alta durante esse período. Minha expectativa era de que teria mais rotatividade de clientes pela desistência e falta de adesão ao processo terapêutico, e também pela minha falta de experiência em conduzir o processo terapêutico, mas o que eu vivenciei foi o contrário. Os clientes atendidos por mim passaram a aderir e a se comprometer com o processo terapêutico. Em todos os oito casos eu pude verificar o crescimento e o desenvolvimento do cliente, assim como identificar mudanças significativas que ocorreram, tanto em termos de atitudes e comportamento, como na personalidade. Essas mudanças foram registradas em meus diários de sessão e apresentadas à supervisão.

 

No início do estágio, nos primeiros atendimentos, me deparei com uma situação de impotência diante de uma bagagem teórica que levava comigo sem saber como utilizá-la na prática. Não sabia muito bem como conduzir a sessão, o que dizer ao cliente, o que fazer com o silêncio. Fiquei muito angustiada, até o momento em que pude compartilhar e desabafar na supervisão e compreender como eu estava vivenciando aquela situação. Aos poucos fui adquirindo confiança em mim e no meu poder de atuação frente a situações terapêuticas previsíveis e imprevisíveis e tendo mais compreensão e conhecimento de como ocorre o processo terapêutico centrado na pessoa.

 

Inicialmente ficava na dúvida se devia ou não iniciar a fala, fazer alguma coisa que movesse a sessão. O silêncio causava-me angústia, precisei compreender a minha relação com o silêncio para compreender o silêncio do cliente e, aos poucos, a angústia silenciou e, então, passei a utilizar o silêncio terapeuticamente. Percebi que alguns clientes precisam ser facilitados no processo a se revelar, e que outros clientes passavam a se revelar espontaneamente. Compreendi que é o próprio cliente quem sabe o que é melhor para ele e onde ele quer chegar, mas que muitas vezes ele não sabe “como” fazer isso, e o meu papel como terapeuta foi o de acompanhá-lo e ajudá-lo nessa descoberta.

 

Ao longo dos atendimentos, fui compreendendo que não existe um modelo, um formato de psicoterapia para que esta seja real e eficaz. Compreendi que a terapia é dinâmica e o processo terapêutico é contínuo.  A cada atendimento que vivenciava, passei a verificar que era preciso empenhar-me em construir uma relação com cada cliente. Verifiquei que o relacionamento terapêutico por si só torna-se um agente de mudanças. Confirmei que esse relacionamento deve ser caracterizado por autenticidade, consideração positiva incondicional e empatia, atitudes terapêuticas consideradas básicas para a ACP.

 

Foi muito importante compreender que ser uma terapeuta centrada na pessoa é ser centrada no presente, no aqui-agora. Na formação acadêmica, aprendi a dar ênfase à história do cliente, à constituição do seu passado. Como terapeuta centrada na pessoa, passei a não dar ênfase ao passado do cliente e sim aos eventos imediatos no momento da terapia, isso não significa que eu passei a negar a importância do passado ou de eventos históricos na vida do cliente, mas passei a compreender a importância de se presentificar e ressignificar o passado, isto é, dando aos fatos passados um novo significado no momento em que se manifestam.

 

Desenvolver a compreensão empática foi uma das atitudes terapêuticas mais difíceis para mim. Captar o que o cliente realmente sente sem projetar meus próprios sentimentos e transmitir ao cliente que eu estou compreendendo seus sentimentos nem sempre foi possível, mas nos momentos em que compreendi empaticamente, pude verificar a eficácia da terapia e o ganho do cliente com essa atitude.

 

Outra experiência significativa foi verificar que quanto mais autêntica e verdadeira eu me apresentava ao cliente, mais se fortalecia o vínculo na nossa relação terapêutica. Aos poucos passei a ser cada vez mais congruente com o cliente e a expressar meus sentimentos em relação ao cliente, e essa atitude foi me fortalecendo, me tornando mais segura na relação com o cliente e nas intervenções terapêuticas.

 

A expressão da consideração positiva incondicional foi espontânea desde os primeiros momentos dos atendimentos, pois considero essa atitude uma característica de meu modo de ser e de ver o mundo e as pessoas. A disposição para aceitar o cliente sem julgamento ou qualquer tipo de valor social favoreceu para que o cliente se sentisse seguro e apoiado para se revelar na relação terapêutica. Foi surpreendente para mim como esse fenômeno se revelou tão rapidamente em todos os processos terapêuticos que acompanhei.

       

Em muitos momentos senti que precisava do auxílio de algum experimento ou recurso que pudesse me ajudar na dificuldade de lidar com o cliente ou de levá-lo a experienciar algum sentimento. Todas as vezes em que utilizei de algum recurso ou experimento da Gestalt-Terapia, tinha um objetivo definido, ou de levar o cliente a relaxar quando eu percebia que ele estava tenso ou de levá-lo a entrar em contato com seus sentimentos a partir do contato com seu corpo, com seu funcionamento físico e emocional ou de levá-lo a expressar algum sentimento, como a raiva com o experimento da almofada. Levar o cliente a escrever sobre ele ou sobre algo em específico foi útil em alguns casos em que o cliente demonstrava timidez para falar ou desorganização de pensamentos. A experiência da viagem fantasia foi maravilhosa, em todos os casos os clientes revelaram, na vivência, o despertar do poder interior.

 

Os clientes revelaram uma experiência gratificante e significativa após terem vivenciado alguns desses recursos e experimentos, no início do processo, enquanto terapeuta, esses recursos foram úteis também para a minha própria insegurança, inexperiência e poucas habilidades terapêuticas diante do processo terapêutico. 

 

Aos poucos fui desenvolvendo a escuta, de modo a compreender o discurso do cliente e a captar seus sentimentos. Passei também a acreditar na minha percepção intuitiva e assim comecei a me arriscar mais no contato com o cliente através do processo de fala e escuta. Inicialmente a minha fala era quase que totalmente esclarecedora, pois procurava clarificar para o cliente o que ele estava tentando dizer. Logo senti que precisava avançar, uma vez que a fala estava se tornando repetitiva e insuficiente para movimentar a sessão.

 

Assim fui explorando, na relação terapêutica, a reflexão de sentimentos, a partir do momento em que começo a desenvolver uma atitude empática. Logo passei a perceber, na fala do cliente, quando ele entrava em contradição com seus sentimentos ou comportamentos ou evitando um assunto, e passei a confrontá-lo, o que me fez ver, muitas vezes, um aumento de ansiedade no cliente. Passei a me arriscar na experienciação de sentimentos à medida que comecei a me sentir mais confiante nas intervenções terapêuticas e a não ter medo de revelar para o cliente o que eu estava sentindo e percebendo no momento da escuta, pude perceber que a expressividade facilitava a autorrevelação do cliente.

 

A experiência do primeiro caso em que o processo foi concluído deixou-me muito emocionada, poder constatar o crescimento do cliente, as mudanças que ocorreram e confirmar essas mudanças mediante a teoria me fizeram acreditar ainda mais na proposta da ACP. Vivenciar o momento de encerrar os atendimentos no final do estágio foi outra experiência emocionante e significativa, na qual pude rever com os clientes o caminhar do processo, verificar as mudanças que ocorreram e constatar que o processo terapêutico possibilitou aos clientes o crescimento. Receber o feedback positivo do cliente em relação a minha atuação foi muito motivador nesse momento em que o meu esforço, primeiramente, foi centrado no comprometimento com a pessoa do cliente e, posteriormente, pude aprender com o cliente, na relação terapêutica, a ser psicóloga.

 

Senti-me emocionalmente fragilizada e ao mesmo tempo fortalecida nesse momento final do estágio, um momento que vivencio muitas perdas e muitos ganhos. Perdas com o término de toda uma caminhada acadêmica feita de relacionamentos e vínculos profissionais e afetivos, com clientes, colegas e professores, com quem vou deixar de me relacionar no dia a dia. Ganhos de uma experiência que possibilitará o meu caminhar ao encontro de um sonho, que a partir deste momento torna-se realidade, a minha formação acadêmica a fim de atuar profissionalmente como psicóloga.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Na prática clínica orientada pela ACP, pude aperfeiçoar as atitudes facilitadoras e validar que essas atitudes facilitadoras propostas por Rogers: autenticidade, aceitação positiva incondicional e empatia, facilitam o crescimento e o processo do cliente em atendimento psicológico. Passei a acreditar na potencialidade do cliente de se orientar rumo ao crescimento e ao desenvolvimento. Foi possível verificar e identificar as mudanças ocorrerem no cliente, e as fases do processo de mudança propostas por Rogers.

 

Na atuação clínica como aluna-terapeuta, ao articular com a teoria o que estava vivenciando na relação com o cliente, passei a compreender como ocorre o processo terapêutico centrado na pessoa. O suporte teórico, juntamente com a prática clínica e a supervisão, foram os alicerces para a minha formação e desenvolvimento pessoal como profissional de Psicologia, no exercício da ética, qualidade e competência a caminho da formação profissional.

 

O caminhar dessa experiência se deu também pela terapia pessoal, o que me favoreceu compreender ainda mais o processo terapêutico através da experiência de ser cliente. O estágio supervisionado me assegurou experiência no processo de tornar-me terapeuta centrada na pessoa. Com a habilidade da supervisora de estágio de apoiar-me, orientar-me e incentivar-me, passei a acreditar na minha capacidade de atuação, superando a insegurança e a inexperiência.

 

Essa experiência foi significativa no sentido de me criar enquanto psicóloga, na construção de meu próprio estilo de ser terapeuta centrada na pessoa, adquirindo confiança no meu poder de atuação, em minhas habilidades terapêuticas e no meu potencial autorrealizador.

 

REFERÊNCIA

 

BOAINAIN Jr., Elias. Tornar-se transpessoal: transcendência e espiritualidade na obra de Carl Rogers / Elias Boanain. São Paulo: Summus, 1998.

 

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GENDLIN, Eugene T. –Focalização - Uma via de acesso a sabedoria corporal / Eugene T. Gendlin, tradução Carlos S. Mendes Rosa; revisão técnica João Carlos C. Messias. – São Paulo : Gaia, 2006.

 

ROGERS, Carl R. Um Jeito de Ser. São Paulo: EPU, 1983.

 

ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa: [tradução Manuel José do Carmo Ferreira e Alvamar Lamparelli: revisão técnica Claudia berliner]. – 5ª ed. – São Paulo: Martins Fontes, 1997.

 

ROGERS, Carl R. Sobre o poder pessoal. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

ROGERS, Carl R. Psicoterapia e consulta psicológica. Tradução Manuel José do Carmo Ferreira; [revisão da tradução Luiz Raul D. Machado], -3ª ed., - São Paulo: Martins Fontes, 2005, - (Psicologia e pedagogia).

 

ROGERS, Carl R - Aspectos significativos da abordagem centrada na pessoa in Wood, J. Abordagem centrada na pessoa. Vitória: EDUFES, 2008.

 

SANTOS, Antonio M. Quando fala o coração: a essência da psicoterapia centrada na pessoa / Antonio monteiro dos Santos, Carl R. Rogers, Maria Constança. Villas-Boas Bowen - São Paulo ; Vetor, 2004.

 

STEVENS, John O. Tornar-se presente: experimentos de crescimento em gestalt-terapia ; { tradução de Maria Julia Kovacs, George Schlesinger}. – 7. ed. – São Paulo: Summus, 1988.

 

¹ Acadêmica do curso de Psicologia no Centro Universitário de Vila Velha. Rua Diógenes Malacarne, nº 113, aptº 901. Praia da Costa. Vila Velha – ES. CEP: 29101-210. Fone: 33498955. Cel.: 8827-0033. E-mail: [email protected]

² Professora Supervisora do curso de Psicologia do Centro Universitário de Vila Velha. [email protected]